[Cmi-mulheres] sobre a proposta de linguagem

ieri ieri em riseup.net
Terça Abril 6 20:24:40 PDT 2004


cmi fortal,

acho importante colocar algumas questões sobre o posicionamento de vcs 
sobre a proposta de linguagem inclusiva. por favor, espero que não levem 
a mal essa iniciativa pessoal, mas consenso se faz mesmo com a discussão 
de argumentos, né?

bom, nesta etapa, não estamos decidindo sobre o uso dos símbolos @, X. 
Como explicamos na proposta apresentada, o mais importante no momento é 
não excluir as mulheres, que também são vítimas das injustiças e 
protagonistas das resistências para as quais trabalhamos para dar voz e 
visibilidade.

gostaria de entrar um pouco no mérito da validade da proposta. muito 
embora, alguns/mas de vocês não achem necessário, vale lembrar que 
muitas mulheres se sentem agredidas com a linguagem universal masculina. 
eu, por exemplo, me recuso a ser representada pela suposta 
"neutralidade" da língua portuguesa. claro, não sou a única. ignorar que 
mulheres sentem a necessidade de uma linguagem que também fale delas e 
pra elas é achar que somente aquilo que nós achamos necessário o é. é 
ignorar a fala e o sentimento dessas outras pessoas, em favor da nossa 
verdade. essa proposta é assinada pelo cmi-mulheres (que integra várias 
voluntárias e voluntários de coletivos diversos) e cmi-bsb e foi 
aprovada por outros coletivos que acham importante essa mudança. é 
interessante saber que até o cmi-galicia citou essa proposta como 
exemplo de ações positivas dentro do indymedia em seu editorial do 8 de 
março. e que, a partir das nossas discussões, a proposta também já foi 
levada para grupos de outros movimentos sociais (e aprovada! :P).

concordo que a comunicação deve ser clara e inteligível para todos e 
todas que acessam nosso site. A linguagem inclusiva não é invenção nossa 
e quando a gente fica um pouquinho mais atenta/o à questão, percebe que 
ela está sendo utilizada em váááários outros lugares... No próprio CMI 
tem uma quantidade incrível de artigos publicados com linguagem 
inclusiva. Não é tão complicado como parece, mas é importante assumirmos 
uma postura política que nomeia as mulheres, que mostra que elas também 
estão lá! É assim que funciona a história: o que a gente não nomeia, não 
existe. E assim, a gente continua contribuindo para uma vivência 
invisível, perpetuando um imaginário que insiste que as mulheres devem 
se exergar e se sentir sujeitas no masculino plural! o que não é, 
empiricamente falando, verdade para muitas delas.

apenas para reforçar o que já está escrito na proposta, algumas rupturas 
me parecem fundamentais na construção de "um mundo em que caibam todos 
os mundos" e todas as pessoas. a linguagem que utilizamos também pode 
expressar essas transformações: ocupação ao invés de invasão; repressão 
de autoridades ao invés de reação das autoridades; homens e mulheres ao 
invés de homens. isso não é mera retórica, ou teoria; é 
contra-imaginário, é construção de realidade também, realidade que 
expressamos através da linguagem que utilizamos.

pelo que eu entendi, vocês centraram a discussão no fato de que "nem 
todos os leitores estão por dentro da linguagem inclusiva a ponto de 
entender os editoriais com poluição". mais na inteligibilidade, menos no 
mérito. bom, acredito que a comunicabilidade é uma preocupação, senão de 
todos e todas, de boa parte das voluntárias e voluntários do cmi. se 
pensamos que as pessoas leitoras do site não vão entender o @, não vamos 
utilizá-lo! podemos escrever "a/o", ou "A ocupação foi feita por 
trabalhadores e trabalhadoras rurais (...)"! ou procurar utilizar 
palavras mais coletivas... qualquer coisa, menos nos acomodarmos com uma 
cultura que não nos serve! 

também já há a proposta de, não apenas jogar isso lá, mas estimular o 
uso dessa linguagem menos reacionária. pretendemos fazer um editorial 
sobre o assunto e incluirmos um parágrafo na página "publique" mostrando 
o porquê da nossa opção. ou, ainda, colocarmos uma frase em cima dos 
editoriais, com algo do tipo: "O CMI-Brasil opta pela não utilização do 
masculino plural para significar homens e mulheres. Símbololos como o/a 
e @, incluem os gêneros masculino e feminino. Leia mais (link para a 
proposta e o editorial, por exemplo)." esta última frase, sobre os 
símbolos, só seria utilizada se, no final, optarmos pela livre expressão 
e não-padronização estilística do site.

este é um esforço válido para a mudança de nosso próprio imaginário, e 
das pessoas que acessam o site. apenas um dos passos  para dar 
visibilidade à um problema invisível, provocado pelo patriarcado, a 
supremacia dos homens e a discriminação das mulheres. esse nosso 
"movimento dos movimentos", engloba e é formado pro várias lutas 
anticapitalistas que, ao contrário da esquerda mais institucional, não 
acredita que apenas a troca de sistemas vai significar a "sociedade 
livre, igualitária e que respeite o meio ambiente" que queremos. não é 
mesmo? 

sinceramente, continuar ignorando a presença das mulheres (se não 
nomeamos, não existe) porque o texto vai ficar muito grande, ou 
cansativo, ou poluído, não me parecem motivos suficientes... :/ a 
comunicação também é feita com a incorporação de termos, a 
ressemantização de outros e a não-utilização do que não nos cabe mais, 
porque a língua é viva e transformada por quem a fala. que tal 
experimentar e ir percebendo erros e acertos? tivemos longas discussões 
durante a elaboração dessa proposta, especialmente na lista 
cmi-mulheres, talvez fosse interessante dar uma olhada nesses arquivos.

espero que vocês entendam porque é importante continuarmos este debate.

em solidariedade e com carinho,
iéri.

PS: esta carta vai com cópia para o cmi-mulheres e cmi-bsb, autoria 
conjunta da proposta.

uili em riseup.net wrote:

>Resumo da reunião do coletivo Fortaleza 29/03
>
>Bia,  Philipe, George e Mariana Guanabara
>
>Linguagem  Inclusiva:
>Discutimos e tentamos chegar num  consenso, pois houve  divergências, já que
>a maioria  achou desnecessária a utilização da  linguagem.
>- Não somos de acordo no uso do @ e do X, pois polui o texto e atrapalha o
>processo de comunicação.
>- Achamos que deve ser utilizada nas páginas estáticas o "o/a", contanto que
>deixe claro ao  usuário o que é? e o porque estamos utilizando a linguagem
>inclusiva.
>- Já nos editoriais não somos de acordo. Achamos que nem todos os leitores 
>estão por dentro da linguagem inclusiva a ponto de entender os editoriais
>com poluição. Os voluntários também não estão acostumados em escrever de tal
>forma. O principal motivo é a razão de ser da linguagem inclusiva.
>Comunicação é a troca de informação entre pessoas, da forma mais simples
>possível. Com a linguagem inclusiva, está troca ficará difícil pois o texto
>estará muito poluído. O que temos que fazer é tornar o texto o mais simples
>possível. Outros motivos: Poluição visual, aumento do texto e até que ponto
>a Linguagem Inclusiva inclui? A idéia, na teoria, pode ser agradável,
>interessante, mas na prática polui e atrapalha.
>
>_______________________________________________
>Lista CMI-Brasil
>CMI-Brasil em lists.indymedia.org
>http://lists.indymedia.org/mailman/listinfo/cmi-brasil
>
>  
>

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