[Cmi-mulheres] proposta linguagem inclusiva CMI Salvador
Manoel
manoel em riseup.net
Segunda Abril 19 14:29:48 PDT 2004
Gente,
segue abaixo a ata da reunião de sábado. Se estiver faltando alguma coisa, completem, bitte... Nossa proposta divergente sobre linguagem inclusiva também segue abaixo.
[]'s
Manolo
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ATA REUNIÃO CMI-SALVADOR
DATA: 17/04/2004
HORÁRIO: 14:00h
LOCAL: Quilombo Cecília (Rua do Passo, 37, Pelourinho)
RESOLUÇÕES:
(...)
7 - Proposta de linguagem inclusiva
O CMI-Salvador tem uma proposta divergente baseada numa discussão sobre as finalidades da linguagem inclusiva. Segue texto abaixo.
"Consideramos que a linguagem inclusiva, na forma como foi colocada na proposta apresentada (substituição do sinal indicativo de gênero - "o", "a" - por um sinal ambivalente - "@", "x", "=", etc.), pode atrapalhar a leitura e a compreensão da mensagem, uma vez que é apenas conhecida de pessoas já envolvidas com a militância de gênero. Mesmo se se colocasse um aviso a cada texto ("este artigo utiliza linguagem inclusiva") ou num artigo explicativo ligado ao texto, ainda assim a referência à linguagem inclusiva seria compreendida por pessoas já envolvidadas com esta mesma militância, e a leitura do texto seria condicionada ao tempo disponível por parte da pessoa que lê, seu interesse por procurar informações sobre o assunto, etc. Seria algo como uma "expiação de pecados" do militante (homem) frente à militante (mulher): não há como fazer muito quanto ao que existe de domínio masculino na linguagem, então adoto os sinais ambivalentes como forma de dizer que opto por não dominar - mas ao mesmo tempo esta recusa à dominação pouco contribui ativamente para o fim da dominação fora dos círculos da militância.
Da mesma forma, a linguagem inclusiva tem seus efeitos apenas na sua forma escrita, pois a leitura oral traria de volta a dominação de gênero ("Os/as" ou "as/os"? "Todos e todas" ou "todas e todos"? Quem vem primeiro, e por qual critério?), além de que muitas pessoas já acostumadas com a linguagem inclusiva ainda lêem os sinais ambivalentes ("@", "x", "=", etc.) no masculino, pelo condicionamento a que foram submetidas desde a infância - em especial no caso da arroba ("@"), cujo formato facilita este "desvio de função".
Assim, o CMI-Salvador, reconhecendo a dominação de gênero que existe na linguagem escrita e falada, responsável por condicionamentos de leitura, em conjunto com as dificuldades criadas pelo descompasso entre a linguagem falada e a linguagem escrita quando os sinais indicativos de gênero são substituídos por sinais ambivalentes ("@", "x", "=", etc.), propõe que:
AO INVÉS DE SE SUBSTITUIR O MASCULINO OU FEMININO NOS PLURAIS QUE ENVOLVAM O GÊNERO FEMININO, QUE SEJA USADO O GÊNERO FEMININO EM TAIS PALAVRAS.
Tal medida não atrapalha a leitura (nossos condicionamentos de leitura contém também a leitura de femininas), não impõe um descompasso entre a linguagem escrita e a linguagem oral (quem lê "as trabalhadoras" não tem como ler de outra forma) e ao mesmo tempo gera o estranhamento que se desejava com a substituição dos sinais indicativos de gênero por sinais ambivalentes ("@", "x", "=", etc.) (quem lê o plural no feminino compreende o significante e o significado, mas se pergunta: "por que está no feminino e não no masculino?").
É preciso lembrar, igualmente, que o dominador não faz compromisso algum com a ordem anterior que destruiu para poder exercer seu domínio. Quem quer romper com este novo domínio não deve ter, da mesma forma, nenhum escrúpulo de considerar os pontos de vista do atual dominador - pelo menos num primeiro momento. O choque deve ser feito. A discussão sobre dominação de gênero na linguagem passa por processo semelhante: nunca foi perguntado às mulheres se desejavam se sentir homens quando incluídas num grupo de 126.348 mulheres e apenas 1 homem (exemplo hipotético). Há exemplos práticos tão gritantes quanto este: nas UCSal o curso de Serviço Social é composto predominantemente por mulheres (há cerca de 5 homens no corpo discente) cujas alunas são tratado no masculino pela presença de 2 a 3 homens em sala, ou mesmo quando não há homem algum presente. Por outro lado, neste mesmo curso existem os germes desta proposta que sustentamos: há professores (homens) que se recusam a usar o plural no masculino, e explicam seus motivos no começo do curso. Consideramos que o verdadeiro choque na linguagem é fazer com que os homens seja tratados pelo feminino, para que sintam na pele o tipo de dominação de linguagem à qual submeteram a mulher por tanto tempo (mil e poucos anos, em se tratando de língua portuguesa).
Uma vivência na posição de dominado faz com que se tenha uma outra pespectiva quanto ao exercício do domínio, e se perceba tal relação como problemática. Lembramos o exemplo da professora Jane Elliot, de Riceville, Iowa: logo depois do assassinato de Martin Luther King, ela bolou uma vivência em racismo que passou a aplicar com as crianças da escola (todas brancas). Ela dividiu a classe em crianças de olhos claros e olhos escuros, e alternava os grupos entre dominados e dominantes, pedindo que o grupo dominado fosse tratado - literalmente - como escória, lixo, dejetos humanos. Depois, ao fim da experiência (que durava alguns dias), pedia para que as crianças (todas brancas) transpusessem esta experiência para o cotidiano do povo negro e notassem que aquilo que sentiram por alguns dias era o que o povo negro sentia todos os dias. A experiência foi registrada no documentário "Eye of the Storm" (direção W. Peters. Mount Kisko, Center for Humanities, 1970), e em 1985 os alunos daquela turma de 1970 foram novamente entrevistados, dizendo o quanto sua vida posterior mudou depois daquela experiência (v. o documentário "A Class Divided", de 1985, em que as entrevistas com a professora Jane Elliot e as crianças, já adultas, são alternadas com outra vivência semelhante, aplicada a oficiais correcionais. V. ainda, sobre a mesma experiência, os documentários "Olhos azuis" (1996) e "O olhar indignado de Jane Elliot [1998?], Denktmal Films, EUA (Br-GNT). Alguns destes foram exibidos pelo canal GNT há certo tempo.).
Levantamos esta proposta sabendo desde já que ela pode levantar alguns tipos de polêmica, mas é justo o que se pretende como efeito, tanto em sua proposição quanto em sua eventual adoção. Esperamos que seja possível refletir coletivamente sobre as deficiências da linguagem inclusiva, e as possibilidades de criarmos novas formas de nos expressar."
Sem mais, encerramos a reunião.
(Para mais detalhes sobre Jane Elliot e a experiência "olhos castanhos/olhos azuis", vejam as seguintes páginas:
http://www.educationarena.com/educationarena/sample/sample_pdfs5/CJME32_1b.pdf
http://www.horizonmag.com/4/jane-elliott.asp
http://www.magenta.nl/EyetoEye/contraste.html
http://www.findarticles.com/cf_dls/m1299/4_47/73624229/p1/article.jhtml
http://www.indignado.blogspot.com/2003_01_01_indignado_archive.html(Domingo, Janeiro 05, 2003)
http://www.iearn.org/hgp/aeti/aeti-1997/magenta-project.html
http://freeyourmind.weblogger.terra.com.br/200401_freeyourmind_arquivo.htm)
-------------- Próxima Parte ----------
Um anexo em HTML foi limpo...
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